domingo, 29 de junho de 2008

Orgânica e Essência


As palavras de Trasímaco no livro primeiro da República de Platão, confirmadas mais tarde por Nietzsche no seu "Deus morreu" pela voz de Zaratustra, versam que "a justiça não é mais que o interesse do mais forte", ou seja, que a democracia é o ringue ideal para o pugilato natural do homem. Porque sejamos sinceros: esta tipologia de sociedades que engendrámos desde que os pulhas franceses se lembraram de existir e fazer rolar cabeças em carnificina, é a concretização de um processo de retrocesso civilizacional sem precedentes, retornando à tragédia mitológica e à verdade pela dialéctica fantástica de outros mundos.

Os sofistas governam o mundo desde a queda da escolástica. O homem no centro, como medida de tudo sem nada que o meça. O homem, uma medida sem medida para medir o Bem, a Justiça e a Verdade. É esta a realidade da cidade negra que construímos na modernidade. O individuo têm a potência de ser o mais forte, na sua existência relativa, e de gerar verdade, fazer verdade, relativamente. E não é enquanto membro social, mas enquanto ser independente, atómico.

A desagregação vem daí. A orgânica social ruiu a partir daí. Enquanto não percebermos que a essência vai para além dos constituintes e é antes ideia que se projecta no mundo, continuaremos sempre a buscar unidade nas partículas, como se fossem ponto de partida. Ora o ponto de partida é o Bem, e o Bem não é relativo para ser deixado ao critério absurdo de quem cria maiores e melhores pugilistas mediáticos para vencer o prémio do poder. Em suma, o mundo não é o que quisermos. O mundo é um cumprimento. Uma mesa, em última análise, não é somente um conjunto de tampo e quatro pernas. Virem-na de pernas para o ar e terão o exemplo perfeito do que faz a rotatividade democrática: os átomos são os mesmo, mas o cumprimento da essência da mesa desaparece.

Toda a cidade requer unidade, e unidade que tenda para o ponto orientador da acção comunitária do homem. Podemos dizer que o humano, como ser social, é dedutivo, não indutivo. Do Bem se deduz a acção, a orgânica, e se conhece a essência que sustenta a boa realidade. Pensarmos o contrário é sentarmo-nos com a mesa virada de pernas para o ar.

[GdR]

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